Palestra de Cristiane Barbosa aconteceu no Labjor e apresentou os principais usos da ferramenta por jornais de grande circulação e jornalistas de Manaus
A inteligência artificial veio para ficar. Agora, precisamos dominá-la para não sermos dominados, como disse a Profª Cristiane Barbosa na palestra “Entre humanos e bots: o papel da IA na produção de notícias”, que aconteceu no dia 19 de março. Barbosa é jornalista, professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e está desenvolvendo seu projeto de pós-doutorado no programa de Divulgação Científica e Cultural sob supervisão da Profª Graça Caldas.
A pesquisa se debruça na intersecção IA, jornalismo e Amazônia, trazendo à tona desafios éticos, oportunidades tecnológicas e a necessidade de adaptação dos profissionais na região.
“A Amazônia é palco de crises ambientais e sociais que demandam jornalismo de qualidade. Entender como a IA pode amplificar ou prejudicar essa cobertura é vital para a democracia e o combate à desinformação”, comenta Barbosa.
Já é possível observar uma série de impactos da IA nas redações, e prever alguns mais. A professora cita como exemplo a redução de pequenos jornais regionais, o que contribui para desertos de notícias no país. Há também a possibilidade da redução de vagas de emprego nas redações. Entretanto, Barbosa aponta a provável transformação de funções, com contratação de profissionais especializados para trabalhar com as inteligências, o que exigiria uma nova qualificação na área. É o que já foi visto em uma vaga aberta no final de 2023 pelo New York Times: diretor editorial de iniciativas de IA para o jornalismo.
Participaram da palestra alunas, alunos e professoras do programa de Mestrado em Divulgação Científica e Cultural, que puderam conhecer alguns resultados preliminares das duas primeiras etapas da pesquisa. A primeira, investiga como portais de grande ressonância nacional (O Globo, G1, O Estado de São Paulo e Folha de S. Paulo) têm incorporado a Inteligência Artificial tanto no trabalho jornalístico quanto na melhoria da experiência do usuário nas plataformas e interação com o conteúdo. Na palestra, Barbosa diz se preocupar com a falta de detalhes e transparência nas políticas de uso da IA declaradas pelos veículos.
A segunda etapa mergulha no contexto específico amazônico e está analisando, por meio de entrevistas com jornalistas de Manaus, como esses profissionais tem aplicado a IA no dia a dia do trabalho. O objetivo é compreender a percepção que fazem desse uso, investigando se há algum tipo de conflito ético ou moral. A pesquisa também quer entender como jornalistas tem usado a IA na cobertura de temas críticos à região, como crise climática, garimpo e conflitos com terras indígenas.
Ao longo da palestra, a discussão também se estendeu para a qualidade da informação gerada por bots, especialmente sobre alucinações e vieses reforçados tanto pelos algoritmos quanto pelas fontes de informação que alimentam os programas. Sobre isso, a pesquisadora Graça Caldas comenta como, muito antes das inteligências artificiais ou mesmo da internet, já havia manipulação da informação difundida pelos veículos, e que o ponto chave continuará sendo filtrar a informação de qualidade.
Nesse ponto, especialmente quanto a confiança das informações, Simone Pallone, também pesquisadora do Labjor que esteve presente na palestra, acredita que o ponto chave é entender o contexto e se acostumar com a nova realidade. Ela compara a situação com veículos tradicionais, destacando que não confiamos em qualquer veículo e que sempre houve a necessidade de checar a credibilidade da fonte de informação. É um exemplo que reforça a necessidade e o crescimento de agências e profissionais especializados em verificação de conteúdos. E mais um exemplo de como jornalistas precisarão se adaptar as novas exigências da profissão.
Por Mayra Trinca